03 novembro, 2006

Lembrou que era seu aniversario no fim da tarde de outono. Afinal, quem ligaria para desejar-lhe que fosse um bom dia? Familia ja nao tinha mais, depois que os pais morreram em um acidente de carro, no ultimo natal. Amigos? Ja se haviam passado anos desde que esquecera o que eram amigos. Os ultimos ficaram no Brasil, que era pequeno demais pra ele.
Ele creceria. Nascera pra crescer e sabia disso. Quando adolescente brincava que com seus 22 faria um investimento que daria certo. Com 23 teria seu primeiro milhao. De dolares. Completava 40 naquela tarde e o que realmente tinha? Seu computador, que usava pra jogar paciencia, uma colecao razoavel de CDs e seu gato preto, companheiro das horas nostalgicas, e essas horas eram cada vez menos raras. Sentia falta da infancia, e da adolescencia sonhadora. Sempre quisera estar ali, mas pensava que seria diferente. Teria sua mansao e seus criados. Caes de guarda e guarda-costas, pra axpulsar os sequestradores que se escondiam em cada esquina. De dia checaria seus negocios pelo computador, e de noite, jantaria o melhor da cozinha europeia. Morava em um AP minusculo, de aluguel. Usava pratos e talheres descartaveis e limpava o chao uma vez por mes. As roupas levava na lavanderia mais barata que encontrasse. Tinha um poodle barulhento, heranca de uma ex e motivo de reclamacoes diarias dos vizinhos. Roubara comida no supermercado, duas vezes. Almocava um sanduba de queijo com presunto, nos meses que conseguia gastar menos no puteiro, e de noite comia o resto que encontrasse na geladeira.
Por mais que se esforcasse nao conseguia lembrar exatamente como caira em um poco tao fundo. Tinha tudo que precisava pra dar certo. Suas notas na escola eram acima da media. Nunca as melhores, mas longe das piores. Poderia trabalhar em qualquer lugar do mundo com as influencias de seu pai, um milionario do mundo dos negocios. Era criativo, pelo menos achava que sim. Ja ate tentara ser musico, nao deu certo. Tentara ser poeta, nao deu certo. Escrevera um romance. 512 paginas de muita acao, drama e romance. Nunca achou uma editora que se dispusesse a publicar. Pintara alguns quadros, em suas aulas de pintura no primario, nunca profissionalmente. Nunca plantara nem sequer uma arvore. Nao achara nem mesmo uma mulher disposta a lhe dar o filho que lhe completaria a vida.
Nao se sentia bem relembrando assim sua vida falida. O copo do conhaque com o qual se presenteara esvaziava rapido. Nem reparava nas meninas que dancavam no palco, pela primeira vez. Nao queria sexo naquele dia. Nem mesmo com aquela da semana passada, que o fizera superar limites. Era sexta.
Voltou pra casa, se e que "aquilo" pode mesmo ser o lar de alguem. Chorou. No meio das roupas jogadas encontrou o telefone, e a agenda antiga. Achou o telefone dela. Nao tinha certeza se ela mantinha o mesmo numero, mas nao custava tentar. Chamou quatro vezes antes que alguem atendesse, com voz de sono. Era ela. "Como que voce me liga depois de tanto tempo, a essas horas, e bebado?! Ta louco?". Desligou. Olhou pro relogio e viu que ja eram 5, nem percebera o tempo passar.
Estava bebado demais pra dormir, apesar de toda contradicao. Ligou a TV. Nao gostava de assistir, mas nao conseguiria digitar sua senha no computador. Desenhos. Lembravam da sua infancia, mas ele nao queria mais lembrancas. Nao por hoje. Desligou. Colocou um CD de Jazz no som. Relaxava. Se afundou em melancolia, ate que dormiu.
Acordou ali, no chao da sala. 3 da tarde, sabado. Ate na semana anterior sabado era dia de dormir. Nao mais. Nao conseguia dormir mais. Decidira mudar. Nao dava pra continuar assim. Era um "quarentao" agora, tinha que arrumar uma vida decente! Foi procurar emprego e nao achou. Tentou tocar o velho piano, desafinado com a falta de uso. Tentou pintar um quadro, faltava-lhe tinta. Faltavam-lhe ideias. Tentou escrever mais um livro, talvez um mais comercial, so para ganhar uns trocados. Seus dedos nao digitavam. Estava bloqueado, mentalmente. 7 da noite, hora de ir no bar, beber. Afinal, era sabado. Iria? Foi. Se esqueceu das lembrancas, se abdicou dos sonhos. Bebeu naquele e em todos os outros sabados de sua vida, nao muito mais longa. Seguiu, do mesmo jeito. Escondia a melancolia, e afogava as lembrancas no conhaque. Nao era assim uma vida muito boa, bem sabia. Nao ligava. Vivia. Apenas vivia. E morreu, sozinho, como era de se esperar.